domingo, 1 de maio de 2011

Campanha salarial dos professores de Cubatão - 2011

Começou nossa campanha, concretamente, com a primeira ação coletiva de manifestação.

Na noite de ontem, dia 30 de abril de 2011, um grupo de professores pequeno, mas decidido, marchou ruidosamente pelas ruas da cidade, vestidos de preto, com nariz de palhaço (que francamente, já não sei se é postiço) e apitando para todo passante ver e saber como se tratam os professores nessa comunidade.

O objetivo foi a manifestação pacífica e ordeira na entrada do Baile da Cidade, evento cujo valor pago pelo convite era de 150 réis.

A manifestação foi tranqüila e bem animada, com alguns momentos de tensão com os fotógrafos dedo-duros da prefeita. Claro que entendemos o fato de que eles são trabalhadores empregados a serviço da repressão ao movimento, mas nos surpreende o fato de que eles realizem seu trabalho com tanta eficiência, ao ponto de até parecer afronta.

Mais uma vez, fica a questão:

A categoria quer ou não quer ser respeitada como tal? Estamos nos mobilizando, faça parte e orgulhe-se de seu exemplo de lutador. O pensamento crítico exige uma ação crítica.

Estamos em assembléia permanente! Reuniões todas as quartas-feiras na sede da APMC,

Rua São Luiz 267, Vila Nova, Cubatão.

Parabéns a todos que participaram da nossa primeira ação.

Sobre a escola chata

A primeira coisa dita por mim em sala de aula, no início do ano:

"Caros estudantes, não vamos ter muito tempo nem espaço para diversão aqui. O lugar apropriado para isso é outro! Lembrem-se que estamos em local de trabalho. Estudar exige esforço e concentração, coisas que não são sempre divertidas. Precisamos compreender isso para fazer com que nossas duas míseras aulas semanais rendam algo útil para vocês"

Parto do princípio de que a escola é o local onde se privilegia o conhecimento, sua aquisição e mesmo sua produção. Gosto de propor atividades em que a leitura seja exercitada com vigor e rigor, direciono as energias todas nessa direção.

Quero dizer com isso que não negocio o papel da escola, porque isso não pode ser negociado, esse é um papel dado, afirmado socialmente, historicamente. Inclusive, quando como hoje em dia, podemos observar as mudanças profundas pelas quais ela passa.

Mesmo que o acesso a ela seja muito mais democrático do que antes, é preciso permanecer na trilha: a escola é um local onde se privilegia o conhecimento. As massas que estão na escola hoje não são mais a elite pensante nem mesmo os filhos privilegiados da classe média. Todos estão na escola, o que é excelente. Mas ainda é preciso educar o povo, esse soberano, no sentido de cimentar a importância da escola para esses novos atores sociais em potencial.

E a escola é chata. Com toda certeza, pois que na ausência do que chamamos "família estruturada" é a escola exatamente o limite que se impõe a estudantes que não conhecem tais limites dentro de casa. E deve ser por isso que muitos dos nossos ex-alunos em escolas dos bairros mais pobres, vem freqüentemente nos visitar e permanecer conosco por horas e horas. Com certeza fomos muito mais do que meros ensinadores de matérias, mesmo quando resmungamos na sala dos professores que "eu sou é professor de ... , não sou educador". Nós somos humanos e tão humanos que nossas crenças mais arraigadas são solapadas por nossa necessidade de nos relacionarmos decentemente com os estudantes. É um desafio constante, difícil, mas que na verdade sempre vencemos, ainda que não possamos ver o resultado de nosso trabalho.

Ou seja: chata ou não, a escola educa e faz diferença na vida das pessoas. Evidentemente, fica aberta a possibilidade de construir uma escola mais simpática, atraente e até, por isso, mais eficiente. Tudo muda, tudo está em movimento, mas também tudo tem uma racionalidade implícita, que é justamente o que garante uma certa continuidade das coisas, inclusive competindo com o caos que nos ameaça de vez em quando.

Precisamos encontrar o equilíbrio entre essas duas forças, considerando a importância dos conflitos exatamente como fatores da educação, da formação dos indivíduos. Não faz muito sentido educar sem reconhecer os conflitos, as diferenças, os choques de geração e de cultura a que estamos todos expostos. Eles na verdade são fundamentais, ainda que não sejam matéria dada, pois estão o tempo todo em nossas vidas.

E como se pode separar vida e escola?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Quais são nossas reais preocupações?

Sou professor e sinto as mesmas coisas que todos os professores quando entro em sala de aula. Também tenho brios, também me enervo e me desgasto. O que não posso entender é a atitude dos meus colegas em geral, que sonham com o passado, um passado que nem era tão bom assim, mas que permitia ao professor ser muito mais temido que respeitado...

Sonhar com um tempo em que a escola não era pra todos, mas apenas para "quem queria" ir à escola(sic).

Estou querendo saber que tempo foi esse, que eu não conheci.

Da minha parte, eu fui um aluno medíocre, tanto quanto qualquer criança saudável. Afinal, qual criança em sã consciência nasce afim de ficar preso durante cinco horas diárias?

Não vou radicalizar e comparar escola a presídios, não acho que chegue a tanto, embora no aspecto físico essa semelhança seja cada vez maior. Cabe uma discussão sobre isso...

Mas com toda certeza passar cinco horas, muitas vezes cozinhando no calor do verão, sem poder beber água, sem ter o direito de ir ao banheiro livremente, bem isso não me parece muito saudável.

E convenhamos, escola é mesmo uma coisa muito, mas muito chata. Sou capaz de entender a angústia dos meus alunos, mesmo sabendo que desse aspecto da escola, não dá para fugir (vou discutir isso também em outro "post").

Como eu já disse, sofro os mesmos males dos meus colegas, mas mesmo assim, sou capaz de entender uma coisa essencial: nós não lidamos com o ideal, mas com o real. Por trás dessa romantização da escola de antigamente, há na verdade uma tremenda dificuldade de adaptação ao mundo real.

E como a escola, está efetivamente aberta para todos, esses meus colegas sofrem muito, pois não conseguem se sentir parte desse movimento de abertura da escola, não conseguem aceitar o mundo de perspectivas diferentes trazidas pelos novos integrantes do corpo discente, gente que nem sempre tem pais e mães como nós (cremos que) temos ou tivemos, gente que vem de outras camadas sociais muito mais distantes da nossa realidade de classe média freqüentadora de botecos com música ao vivo e teatros do SESC.

Estamos sofrendo um legítimo choque cultural, que precisa urgentemente ser explicitado, para que os conflitos sejam resolvidos de maneira pacífica. Mas que ninguém se iluda, os conflitos não se encerrarão. O professorado precisa aprender a resolver conflitos usando mais do que um "cala-a-boca".